Talvez, seja mesmo uma questão de tempo. Como se eu pudesse fechar os meus olhos e deixar certas coisas no passado apenas conjugando verbos em um presente distante. E eu preciso admitir que às vezes, as coisas se tornam mais fáceis dessa maneira. Porque o lado bom de tudo isso foi justamente ter saído em desvantagem. Essas coisas sempre são obvias demais pra gente perder tempo com coincidências. E sinceramente? Eu cansei de ter que merecer primeiro pra depois poder gostar de alguém. Desculpa te decepcionar.
quarta-feira
A racionalidade nunca foi o meu forte. Eu sempre fui um tipo de pessoa que precisa se camuflar pra poder aparecer e ser racional pra mim sempre significou agir com o coração. E agora, pareço engraçada tentando encontrar as palavras certas pra tentar me desculpar por todas as coisas erradas que tenho feito. Porque quanto mais o círculo se fecha, mais espaço eu ganho, entende? E eu levei muito tempo pra aceitar as coisas como elas realmente são. Foi preciso que eu aprendesse a me doar de um jeito diferente. Porque às vezes é preciso parar pra correr contra o tempo. E eu precisava disso, precisava mudar pra continuar sendo eu mesma, entende?
consoantes
O papel sempre foi o meu espelho. Meu disfarce pra eu ser um pouquinho mais de verdade, entende? Eu improviso palavras como quem inventa desculpas. E ensaio rimas a procura de rumos. Às vezes, é como se a minha vida fosse uma espécie de livro pautado no qual eu não consigo escrever sobre as linhas, entende? E a minha história parece ter virado uma história de reticências. Uma história de pontas soltas a amarrar (...)
versus você
(...)
Até nos lugares mais improváveis, nos olhares mais dispersos ou até quem sabe, no avesso do mundo onde o tempo corre com menos pressa pra gente poder descansar da realidade... Em cada linha, verso ou parágrafo mais avulso (...) no fim é sempre você quem eu encontro. Você está em todos os lugares e eu só queria que estivesse aqui, do meu lado. Você, que tem pólvora nos olhos e estrelas escondidas debaixo dos pés.
nas entrelinhas
Em pouco tempo o tapete ficou coberto pela pilha de papeis amassados que ela, com raiva, arremessava contra a parede. Era sempre assim. Ela sempre terminava se desfazendo em palavras, mesmo quando essas já não surtiam mais efeito algum. Por bem ou por mal, ainda tentava em vão ganhar credibilidade entre as palavras e quem sabe conseguir domesticar um caos que entre linhas reconstruía a mesma história em forma de paródia. Com desaforos em letras maiúsculas e tudo. E foi entre um verso de neutralidade e equilíbrio, que a estabilidade ganhou voz pra cantar um desespero mudo em tom de zombaria. No superlativo. E era só insegurança que perde a inspiração e usa da expressão pra se fazer valer. De prolixo direto pro lixo. Mais uma vez em sigilo. E de repente, ali, no chão da sala, envolta por sílabas sem brilho, descobriu que TENTAR era um verbo que ela já não conjugava mais. Em tempo nenhum.
primeiro de abril
(...) mas eu não poderia me fazer enganar nem mesmo no único dia em que as minhas mentiras poderiam ser perdoadas.
Ininterrupto
Em algum momento os joelhos sucumbiram ao peso do corpo e então ela parou. Parou de correr como se de repente houvesse descoberto que nunca houve de fato uma corrida e que era mesmo por tanto correr que continuava sempre no mesmo lugar. Estagnada na própria existência.
Talvez, só tivesse medo de descobrir que ela toda era uma farsa.
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