univalente

Gosto mesmo é da tua simplicidade                    
O modo displicente com que o sorriso lhe vagueia nos lábios; da alegria primaveril que carrega nos olhos...

Gosto mesmo é destes encontros que abraçam o instante sem querer, e de tudo que floresce de mansinho no limiar árido do cotidiano

(...)

Mas, desconheço teus despropósitos. Não sei do acaso ou dos teus casos passados que me põe em maus lençóis na tua cama
Mas sei da impermanência. Do alvoroço das horas. Do ritmo dissoluto do tempo. De tudo que se finda em silêncio e repousa em desassossego dentro de cada um de nós.

O destino dos eleitos é saber olhar pros desvãos do mundo com os olhos do coração


Mas menino, eu não posso creditar os teus medos, só sei viver de levezas

na retina e no coração

Quando a gente se encontrar esquece tudo o que eu deixei de ser
Quem sabe eu ainda possa lhe mostrar aquilo que te escapa...
Porque silenciar certas coisas é dar voz a tantas outras que já não cabem no dizer...

Quem sabe a sorte que o vento nos trará? 

O mundo vive por um gatilho, meu bem...
E seguir em frente também é fenecer

(...)

Para o amor: amor em troca

Para nós: toda a imensidão que nos couber 

do que fica

O verbo é gasto, o tempo atrasado
e daqui pra trás já não sou: o amor morreu em nós. 

nós que sempre fomos tanto e muito 


(...)


mas, me falta o meio termo: a máscara de mulher pra eu poder entrar em cena. 

porque esse silêncio é um epílogo mal escrito de nós dois
e fui mais do que somos: eu quis ser céu
porque um dia, você me disse que os nossos horizontes não devem ser limitados

por isso coube a nós ser reticências (...
)

hiato

Pareço uma principiante. Meus dedos se movem hesitantes sobre as teclas e se deparam com uma vastidão descorada que me encara desafiadora. As palavras parecem me provocar: insinuam-se num jogo cego e interminável de vigilância e renúncia. E me cegam (justamente por) no instante momento em que me abrem os olhos. E me manipulam pra dizer as coisas que me escapam quando o verbo se esgota. E me perscrutam com aquela velha perícia letal de quem nada deixa desaperceber... Sempre tão ambivalentes e –ainda assim- fatídicas.

É que nós duas seremos sempre principiantes. Eu, sempre desabituada às minhas próprias particularidades. E elas, sempre despreparadas a dar vazão às imensidades que me inflam por dentro.

solar

Menino,

Não sei da tua demora, mas ainda é em tempo. Talvez eu pareça atrasada, mas na verdade não quero me precipitar, entende? É que ainda desconheço esse caminho, mesmo já tendo percorrido por tantas e tantas vezes estas calçadas tortas... E tu és multidão. Eu me entreguei pros teus despropósitos e você se deixou vencer com displicência. Não foi? Porque não há nenhum horizonte que contrarie esse nosso jeito simplesinho de viver... Então perdoa o meu desalinho, minha falta de jeito pra lidar. É que você quis fazer morada no que há de inóspito em mim e eu não tive teto pra isso tudo, entende? Nem tato... Às vezes isso tudo se parece com descaso, mas é só medo... Porque eu também já flori em outros jardins. Eu também não entendia a singeleza desse sentimento que só sabe ser grande nas suas minúcias. Por isso continuo deixando as reticências falarem por mim. Porque o tempo leva por diante todas essas coisas que se findam em silêncio. Entende? E você não sabe das esperanças que eu guardo no peito -em desassossego- fiadas no tempo a esperar...

Perdoa esse meu coraçãozinho mundano e errôneo que eu levo comigo. Perdoa, porque esse coraçãozinho vagabundo mesmo calejado, continua 
-ainda assim- intato

(...)


A gente precisa mesmo é saber aproveitar os desencontros. 

subsequente

Então... atenho-me a todos os detalhes

Eu: que nunca soube lidar com o que é tangível
E vivo -distraidamente- a cartear com a sorte


Porque o tempo é penhor de calma e tormenta. 

E, ás vezes, a gente precisa desancorar de si pra não correr o risco de acabar afogando na superfície de nós mesmos. Entende? 

insolúvel

(...)

Mas o coração, menina
este só é indomável, justamente por não se saber livre...