vice e versa

Tudo começa com o que não foi dito, o que ficou subtendido. Inconsciente. É debaixo de um sorriso que se esconde a insanidade. Me disseram pra esperar, confiar no destino. Mas eu não posso. Isso seria compactuar com a minha ansiedade. Arriscado demais. E eu admito, não sei fingir. Não sei o momento exato de dizer, de estar, de sentir. De parar. É impulso, improviso. Cauculado e desimpedido. E Ilusões provisórias acabam machucando mais do que planos inacabados. E eu admito mais uma vez: não sei fingir. Preciso de um ponto de fuga. Quinze minutos de pura eternidade.

entrelinhas

(...)

E eu, que sempre gostei de re-começar, não sei mais como dar o primeiro passo. Porque toda vez que eu tento avançar e me aproximar mais um pouco, é como se alguma coisa me rebobinasse pro fim. De novo. Entende?

reticências

O meu relógio tá com arritmia, enquanto o meu coração já quase não se faz sentir quando pulsa. E eu vivo assim, pelos cantos, com os fones no ouvido... E quando anoitece, eu aumento um pouco mais o volume pra não ouvir essa ausência que tanto me ensurdece. E acendo todas as luzes da casa, pra ver se quem sabe, isso faz com que as coisas se tornem um pouco mais claras toda vez que o silêncio tentar fingir que não temos mais tanto assim pra dizer.

gata-borralheira

Eu sempre fui meio nômade. Ou talvez, pra ser mais sincera, eu sempre vivi a esmo demais pra me amarrar a alguma coisa que pudesse por em risco a minha independência. No começo, era só mais uma forma de correr contra o tempo, mas aos poucos a corrida acabou se transformando numa fuga e a fuga no meu próprio cárcere. O fato é que nunca tive muito medo de abandonar tudo e ter que ir embora; e gradativamente isso fez com que eu me tornasse escrava da minha própria liberdade. Porque o meu destino é o acaso, o meu impulso é a raiva e os meus sonhos viram poeira antes mesmo que eu consiga transcrevê-los. Não sei ser discreta, simpática, muito menos espontânea e o melhor conselho que alguém pode me dar é um abraço. Às vezes confundo confiança com dependência e costumava ver o amor como uma espécie de cabo-de-guerra onde eu devia fazer por merecer até a lama... É que pra ser mais exata, a minha estabilidade é a corda bamba e o meu limite é justamente esse, as reticências (..)

veneno orgânico

Sei lá. De duas, uma: ou eu fui muito fudida na minha outra vida, ou eu casualmente nasci na espécie errada. É sério. É como se às vezes, eu meio que parasse de ser pela metade. Entende? E que Raul Seixas não me ouça, mas essa coisa de “metamorfose ambulante” em certos dias me desgasta tanto, que eu acabo parecendo mais um estepe de mim mesma, no melhor estilo da substituta que entra em cena quando os outros pneus furam. É um egoísmo meio estranho, mas às vezes eu só queria.. sei lá, me sentir eu mesma sem ter que me dividir com as outras caras que o espelho não mostra. Você entende? Porque eu até consigo ser mil, mas no final é só a velha e amarga sensação de ser só mais uma. Uma caloura um pouco boba e infantil que quase nunca sabe ao certo como é ser humana.

até que a vela queimou-se toda..

Eu procurei a forma mais certa de te convencer, mas as minhas explicações soam tão embaralhadas e difusas quanto às gotas de chuva que embaçam a janela do meu quarto (...) Eu achei que não fosse preciso desmentir tudo, mas é quase fácil demais cair em tentação quando não há mais mistérios. Eu só quis brincar um pouco de passado e achar uma saída pra nós dois nesse ritmo bom de ilusões adocicadas. Entende? É que às vezes, a gente precisa de um descanso da vida real e eu sou uma boa desculpa pra você escapar da realidade... Vontade de romper, eu também tive. Mas lá no fundo, alguma coisa me disse que tudo bem, eu podia ficar se eu quisesse. E foi isso mesmo que eu quis: ficar. Porque o seu sorriso é o meu melhor esconderijo. E eu deixei você livre para brincar com a minha liberdade. Eu te entreguei a minha alma e você quis o meu coração. Eu só queria que você entendesse que isso da gente sentir orgulho um do outro nunca fez muita diferença pra mim. Entende? Porque no final só sobra aquele silêncio constrangido e esse nó que comprime o peito e estrangula a expectativa de “não poder evitar”. E eu sinceramente não vou conviver com esses rastros mal feitos e acusadores. Mas não se preocupe. É uma pena o fato de para você eu não ter sido nada além de um objeto na sua vã coleção de erros e desgostos. Mas não se preocupe. Eu tenho uma vida pra viver e nós temos tempo de sobra pra gastar. Prazer, o meu mais novo nome é desapego.

outros quaisquer

Fui deitar tarde, com os pensamentos ainda perdidos nessa maré de ondas imprecisas que se arrebentam ora grosseiras, ora estranhamente ariscas aqui dentro. E não sei se foi o sono, a infâmia da noite ou até mesmo insanidade, mas é que de repente bateu uma insegurança, sabe. Um medo de.. sei lá, apagar a luz e ver os meus fantasmas ali fazendo sentinela pras minhas esquisitices... É que agora eu também ando cheia de desculpas para não correr o risco de naufragar em certas respostas. E tudo é uma fuga, inclusive os meus apelos destrambelhados e induzidos de pavoneamento. E eu nessa, de devorar a vida com cuidado e viver como se estivesse sendo constantemente vigiada; me agarrando nessas âncoras vulneráveis para distrair a minha ansiedade compulsiva e fazer dessas impossibilidades um novo motivo de espera para poder habitar o submundo que eu carrego debaixo do peito. E é engraçado a forma como tudo isso reflete para mim e em mim. E o problema não é nem O QUE acontece, mas COMO acontece. Porque agora tudo isso volta, se acomoda e aos poucos, mesmo sem muito o que lembrar, vai preenchendo cada brechinha que a gente encontra para poder fazer de tudo um pouquinho mais. E eu me esforço para que a raiva não vire repulsa e a ilusão não se transforme nessa quase preguiça de vida que me bate de vez em sempre... É só que sei lá, a piada anda perdendo a graça. E eu palhaça aqui, tentando domar um coração contorcionista que já nem cabe mais em mim (..)