nas entrelinhas

Em pouco tempo o tapete ficou coberto pela pilha de papeis amassados que ela, com raiva, arremessava contra a parede. Era sempre assim. Ela sempre terminava se desfazendo em palavras, mesmo quando essas já não surtiam mais efeito algum. Por bem ou por mal, ainda tentava em vão ganhar credibilidade entre as palavras e quem sabe conseguir domesticar um caos que entre linhas reconstruía a mesma história em forma de paródia. Com desaforos em letras maiúsculas e tudo. E foi entre um verso de neutralidade e equilíbrio, que a estabilidade ganhou voz pra cantar um desespero mudo em tom de zombaria. No superlativo. E era só insegurança que perde a inspiração e usa da expressão pra se fazer valer. De prolixo direto pro lixo. Mais uma vez em sigilo. E de repente, ali, no chão da sala, envolta por sílabas sem brilho, descobriu que TENTAR era um verbo que ela já não conjugava mais. Em tempo nenhum.

primeiro de abril

(...) mas eu não poderia me fazer enganar nem mesmo no único dia em que as minhas mentiras poderiam ser perdoadas.

Ininterrupto

Em algum momento os joelhos sucumbiram ao peso do corpo e então ela parou. Parou de correr como se de repente houvesse descoberto que nunca houve de fato uma corrida e que era mesmo por tanto correr que continuava sempre no mesmo lugar. Estagnada na própria existência.

Talvez, só tivesse medo de descobrir que ela toda era uma farsa.

lágrimas de aquarela

Sabe o que é mais engraçado na rotina do destino? A ironia.
Eu até poderia ter me arrependido se tivesse ganhado um pouco mais de tempo. Mas, eu cansei de ser a propaganda das minhas próprias promessas. E o meu silêncio é ausência que eu não quero mais escutar. Não me leve a mal. Vou continuar brincando de ser dona do meu nariz e quem sabe dessa vez, talvez eu me lembre de criar asas (...)

vice e versa

Tudo começa com o que não foi dito, o que ficou subtendido. Inconsciente. É debaixo de um sorriso que se esconde a insanidade. Me disseram pra esperar, confiar no destino. Mas eu não posso. Isso seria compactuar com a minha ansiedade. Arriscado demais. E eu admito, não sei fingir. Não sei o momento exato de dizer, de estar, de sentir. De parar. É impulso, improviso. Cauculado e desimpedido. E Ilusões provisórias acabam machucando mais do que planos inacabados. E eu admito mais uma vez: não sei fingir. Preciso de um ponto de fuga. Quinze minutos de pura eternidade.

entrelinhas

(...)

E eu, que sempre gostei de re-começar, não sei mais como dar o primeiro passo. Porque toda vez que eu tento avançar e me aproximar mais um pouco, é como se alguma coisa me rebobinasse pro fim. De novo. Entende?

reticências

O meu relógio tá com arritmia, enquanto o meu coração já quase não se faz sentir quando pulsa. E eu vivo assim, pelos cantos, com os fones no ouvido... E quando anoitece, eu aumento um pouco mais o volume pra não ouvir essa ausência que tanto me ensurdece. E acendo todas as luzes da casa, pra ver se quem sabe, isso faz com que as coisas se tornem um pouco mais claras toda vez que o silêncio tentar fingir que não temos mais tanto assim pra dizer.